
Se há marca registada do Natal é o extremo consumo. Promoções fazem-se, novos produtos vendem-se e no fim compra-se tudo. Podemos criticar, mas cada um é livre de fazer o que quer. Mas o Natal mostra um lado da realidade que não nos apercebemos, não porque escolhamos não nos aperceber, mas porque já se tornou tão banal que se esconde nesse mesmo banalizo, como se uma capa fosse; falo das doações feitas pelos centros comerciais a instituições de caridade por cada compra nossa lá. A necessidade do ser humano se sentir bem consigo mesmo é explorada até à exaustão. Perante a compra naquele centro comercial, e outro de preços iguais, mas sem doar o que quer que seja, a tendência será escolher aquele que lhe irá dar o conforto, o bem-estar de saber que doou, saber que esta a contribuir para algo, tornando-se assim refém de si mesmo, refém do Natal. E milhões de Euros entram nestas plataformas comerciais, explorando a imagem de pessoas que precisam dessas instituições para sobreviver, ao mesmo tempo que passam a imagem de beneficiários e não de exploradores, recebendo a compaixão daquele que explora; e esses, são os reféns de primeira linha, aqueles que de tanto precisarem, apontam a arma a si mesmos.
Estamos perante algo eticamente reprimível e condenável; porque nada se faz, porque não se pára esta exploração de imagem e sentimentos? Infelizmente o nada fazer, é a resposta. Por vezes temos de ignorar o que é eticamente correcto, para fazer o correcto. E porque? A resposta a esta pergunta está noutra pergunta; serão mesmo estas plataformas de consumo selvagem os verdadeiros culpados? Por cada compra de um produto alguns cêntimos são doados a uma instituição, é isto que se promete; então, o consumidor nada doa, quem doa é o centro, é retirado do lucro uma pequena parte para ser então distribuída, o consumidor nada faz, não abdica de nada, sente-se bem por nada ter feito; ele não quer doar, ele apenas quer a recompensa de doar, explora a duplicar, explora a imagem das instituições e explora o centro, ele esta ali a fazer um negócio. No fim nada o distingue do centro. A única coisa real é essas instituições, elas precisam do dinheiro, porque várias pessoas dependem dela, se a exploração da imagem dela, e das pessoas do qual necessitam dela, para fins comerciais, por muito eticamente desprezível que seja, garante a sua sobrevivência e o bens estar de muitos, temos apenas de as tolerar; pelo menos até melhor alternativa surgir.



