terça-feira, 13 de maio de 2008

Os Imortais (1ºparte)







Imaginem que têm 5 dias de vida.

Saberiam da notícia na segunda-feira de manhã, e morreriam na sexta-feira no fim da noite. Na terça-feira vos era colocada uma proposta. Um vendedor iria aproximar-se e mostraria uma caixa, uma caixa enorme. Podiam lá colocar dentro o que quisessem e quando quisessem, mas tinha um pequeno defeito, esta caixa não podia ser transportada, estava presa, imóvel. Esta caixa depois de comprada seria só vossa, e tinha uma enorme vantagem, valeria o dobro na sexta-feira de manhã.

Para pagar esta caixa seriam necessários quatro dias de trabalho, teriam então de entregar o dinheiro ganho na segunda-feira, pois sexta-feira seria o último dia. Então, perante tal negócio, e como o vendedor tem de ser pago de imediato, entregam o dinheiro de segunda-feira, e fazem um empréstimo para pagar os restantes 3 dias. O vendedor é pago e nunca mais é visto. Então até sexta, vão trabalhar 8 horas, excepto na quinta, pois na quinta os juros do empréstimo aumentam e nesse dia irão trabalham 9 horas. Mas na sexta a caixa será totalmente vossa, e valerá o dobro que valia quando compraram.

O primeiro pensamento que de quem lê este texto provavelmente será ” quem passaria os últimos 5 dias a pagar uma caixa?”, e de facto seria estranho. O impulso inicial seria de aproveitar o máximo do tempo que nos restaria em algo que proporcionasse prazer imediato. Mas quem comprou a caixa o fez por uma simples razão, ele não creditava que ia morrer na sexta-feira.

Conscientemente ele sabia que destino lhe estava reservado, mas inconscientemente acreditava que ia viver para além de sexta.

A falta de uma consciência da nossa própria mortalidade a longo prazo, faz que percamos visão sobre a realidade, levando-nos a fazer planos além da nossa existência.

Essa crença de uma existência prolongada não lhe é individual, não é algo que lhe pertença exclusivamente, nem foi ele o criador ou o causador dela. Ele, que pode ser qualquer um dos que estão a ler, nasceu e viveu ocidente, onde as sociedades de consumo predominam, onde uma das suas maiores características é fazer-nos acreditar que somos imunes, que não morremos; viveremos.

Esta ilusão é vendida a cada canto. A medicina ocidental a cada esquina promete mais e mais anos de vida, a não vida passou a ser uma aberração a evitar, e como tal evitamos. Vendemos a nossa vida para comprar medicamentos que custam um mês de trabalho para ganharmos mais uma semana de vida, mas queremos acreditar que estamos a ganhar anos.

Mas na ilusão sempre acreditámos nós, já deste do tempo do inicio da formação da religião. Não é imortalidade a maior venda de qualquer religião?

Que fizemos nós no início da nossa crença na imortalidade além mundo?

Espalhámos pelo mundo a nossa religião, e considerámos errados todos aqueles que não a seguiam. Acreditávamos estar correctos, e a fazer o correcto para os povos não-cristãos.

Os ocidentais ao espalharem a religião pelo mundo, não estavam se não a espalhar o seu modo de vida.

Todos tinham de se submeter, só assim poderiam ser imortais na outra vida, e civilizados nesta. Se os não-ocidentais negassem a religião ocidental, tornavam-se inimigos, pois, para o ocidental, significava que estavam contra a sua imortalidade.

E hoje? Hoje os ocidentais espalham o seu modo de vida, todos tem de se submeter, caso contrário são rotulados de inimigos, pois estão contra o modo de vida ocidental. Não fizemos mais do que substituir o Vaticano pelos Estados Unidos da América.

1 comentário:

Unknown disse...

Simplesmente brutal... Nem tenho palavras para descrever o quão certo estás e o melhor de tudo é que conseguiste colocar em palavras escritas tudo isto... e isso é muito bonito... Keep the good work... não pares de escrever nunca... tens jeito pedrinho...

Beijinhos

Lara