terça-feira, 13 de maio de 2008

Os Imortais (2ºparte)








Deixou de ser a cristandade a vender a imortalidade, passou a ser o capitalismo. A maior diferença entre a maioria dos religiosos e a maioria dos ateus, é que os religiosos acreditam que podem ser imortais num outro mundo, e os ateus neste. As catedrais passaram a ser os centros comerciais; se algum problema existe, lá deve existir a resposta. E, assim, a imortalidade é algo natural no ocidente.

A morte, que antes pertencia àqueles abandonados por Deus por irem contra ele, pertence àqueles que não seguem o modo de vida ocidental, a eles é algo natural, tão natural que as mortes nesses países nem são notícia no ocidente; só a morte de um imortal é que é notícia. Quando ouvimos notícia de mortes do mundo não-ocidental, não é a morte deles que é a notícia, mas sim quantos mortos ocorreram.

Voltando ao nosso texto inicial. Podemos melhor saber o porquê de ele se achar imortal, mas isto não responde ao porquê de ele ter gasto os seus dias a comprar a caixa. Ele acreditando ser imortal, podia ter gasto os dias em outras coisas, no entanto não o fez.

Porquê?

O que leva a sociedade a gastar os seus anos de vida a pagar objectos?

Recuemos de novo ao tempo da expansão do cristianismo pelo mundo. O mundo era dividido essencialmente entre os civilizados e os bárbaros, sendo os civilizados os Europeus e os bárbaros todos os outros.

E porque os europeus se auto-intitulavam civilizados?

Tínhamos uma sociedade que escravizava, que passava boa parte do seu tempo em guerras, que tinha as ruas infestadas por doenças, onde liberdade era limitada e a população na sua maioria vivia na miséria. Nos bárbaros, em muitos tínhamos uma população com exactamente as mesmas características, mas com menos doenças e menos guerras, sendo muitas relativamente pacificas e onde a fome não existia. Mas entre os dois grupos existia uma diferença essencial: Nós tínhamos cidades, muitas delas, construídas com tecnologia que a maioria desses povos bárbaros não tinha. Cidades onde edifícios e estátuas imponentes, para a época, imprimiam no cidadão um sentimento de grandeza. Perante tal nos intitulávamos superiores. Não pelo que éramos, mas pelo que tínhamos. A cultura dos bárbaros pouco ou nada interessava, se eles não tinham o que nós tínhamos, a nós pertencia o título de civilizados. E quanto mais tínhamos mais superiores éramos. E a forma de comparação entre nações, passou a ser a forma de comparação entre indivíduos. Em vez de estátuas e edifícios passaram a ser objectos.

Isso não mudou. Hoje temos uma sociedade onde compete quem tem mais. A felicidade do indivíduo é algo a ser sacrificado em nome de um maior salário. O Indivíduo passou a ser escravo, e orgulha-se nisso. Para o ocidental, mais vale ser escravo e ter muito, do que livre e nada ter. A sua dedicação ao acto de ter sacrificou a formação da família. Antes um casal formava-se para poderem ter filhos, hoje um casal forma-se para pagar a casa, sendo que o que fica para a eventual criança é o resto do que sobrar do pagamento da prestação da casa e do carro. Onde antes matava-se o cavalo para dar de comida ao filho, hoje não se têm o filho para garantir que não falta comida ao cavalo.

E assim a caixa foi comprada pelo indivíduo, ele perdeu a sua vida a pagar algo que acreditava que ia ter no fim, mas no fim quem ficou com algo foi a caixa. A caixa ficou com a vida dele, a caixa não lhe dedicou nada e ele dedicou tudo à caixa. Ele nada dedicou a ele próprio.

Os Imortais (1ºparte)







Imaginem que têm 5 dias de vida.

Saberiam da notícia na segunda-feira de manhã, e morreriam na sexta-feira no fim da noite. Na terça-feira vos era colocada uma proposta. Um vendedor iria aproximar-se e mostraria uma caixa, uma caixa enorme. Podiam lá colocar dentro o que quisessem e quando quisessem, mas tinha um pequeno defeito, esta caixa não podia ser transportada, estava presa, imóvel. Esta caixa depois de comprada seria só vossa, e tinha uma enorme vantagem, valeria o dobro na sexta-feira de manhã.

Para pagar esta caixa seriam necessários quatro dias de trabalho, teriam então de entregar o dinheiro ganho na segunda-feira, pois sexta-feira seria o último dia. Então, perante tal negócio, e como o vendedor tem de ser pago de imediato, entregam o dinheiro de segunda-feira, e fazem um empréstimo para pagar os restantes 3 dias. O vendedor é pago e nunca mais é visto. Então até sexta, vão trabalhar 8 horas, excepto na quinta, pois na quinta os juros do empréstimo aumentam e nesse dia irão trabalham 9 horas. Mas na sexta a caixa será totalmente vossa, e valerá o dobro que valia quando compraram.

O primeiro pensamento que de quem lê este texto provavelmente será ” quem passaria os últimos 5 dias a pagar uma caixa?”, e de facto seria estranho. O impulso inicial seria de aproveitar o máximo do tempo que nos restaria em algo que proporcionasse prazer imediato. Mas quem comprou a caixa o fez por uma simples razão, ele não creditava que ia morrer na sexta-feira.

Conscientemente ele sabia que destino lhe estava reservado, mas inconscientemente acreditava que ia viver para além de sexta.

A falta de uma consciência da nossa própria mortalidade a longo prazo, faz que percamos visão sobre a realidade, levando-nos a fazer planos além da nossa existência.

Essa crença de uma existência prolongada não lhe é individual, não é algo que lhe pertença exclusivamente, nem foi ele o criador ou o causador dela. Ele, que pode ser qualquer um dos que estão a ler, nasceu e viveu ocidente, onde as sociedades de consumo predominam, onde uma das suas maiores características é fazer-nos acreditar que somos imunes, que não morremos; viveremos.

Esta ilusão é vendida a cada canto. A medicina ocidental a cada esquina promete mais e mais anos de vida, a não vida passou a ser uma aberração a evitar, e como tal evitamos. Vendemos a nossa vida para comprar medicamentos que custam um mês de trabalho para ganharmos mais uma semana de vida, mas queremos acreditar que estamos a ganhar anos.

Mas na ilusão sempre acreditámos nós, já deste do tempo do inicio da formação da religião. Não é imortalidade a maior venda de qualquer religião?

Que fizemos nós no início da nossa crença na imortalidade além mundo?

Espalhámos pelo mundo a nossa religião, e considerámos errados todos aqueles que não a seguiam. Acreditávamos estar correctos, e a fazer o correcto para os povos não-cristãos.

Os ocidentais ao espalharem a religião pelo mundo, não estavam se não a espalhar o seu modo de vida.

Todos tinham de se submeter, só assim poderiam ser imortais na outra vida, e civilizados nesta. Se os não-ocidentais negassem a religião ocidental, tornavam-se inimigos, pois, para o ocidental, significava que estavam contra a sua imortalidade.

E hoje? Hoje os ocidentais espalham o seu modo de vida, todos tem de se submeter, caso contrário são rotulados de inimigos, pois estão contra o modo de vida ocidental. Não fizemos mais do que substituir o Vaticano pelos Estados Unidos da América.